quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Sobre a foto com flores amassadas


Isso era para ser uma carta, não, não, você sabe: essas letras num papel manchado, cheirando a perfume francês barato com aquela rodela do copo de café que ficou em cima por semanas (você bem sabe que eu odeio lavar louça), canto amassado pela ansiedade, não, não, eu não faço mais isso. Traçando esboços, era mais minha cara. Eu tinha uma tradição de Ano Novo. Escrevia num papel as coisas que eu queria pro ano que vem, colocava num envelope, colocava uma vela em cima e esperava ela queimar inteira, isso selava o envelope (inteligente, não?!) e deixava lá num canto de uma gaveta até o próximo réveillon. Aí abria e lia de novo, porque obviamente já tinha esquecido tudo. Se as coisas não tivessem se realizado, eu queimava a carta como num ato de vingança. Se realizasse, eu guardava para lembrar das coisas boas que aconteceram comigo. E esse ano pensei em colocar você nos pedidos, assim, levando ao pé da letra. A testa franzia, os olhos apertavam, foram 10 anos de tradição. Procurei na minha gaveta se havia algum papel. Foram 10 anos. Tá, tá, acho melhor não te colocar nos meus pedidos.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Corpo em chamas

"...Vai ver que não é nada disso
Vai ver que já não sei quem sou
Vai ver que nunca fui o mesmo
A culpa é toda sua e nunca foi..."

Pensei em você, devagar. Não como uma foto, uma imagem, pessoa, algo que me pertencia, algo meu, eu pensava, pensava?, que aquela expressão era pra mim, era minha. Eu passava minhas mãos ilusoriamente sobre você. Eu pensava, pensava?, que de um certo modo as coisas, coisas?, podiam funcionar daquele jeito, mundo ilusório, cartas ilusórias, mãos ilusórias. Porque toda vez que eu pensava!, não, não, eu ia negar, me esconder, tossir. 

Como uma tatuagem na cor branca, fica parecendo cicatriz antiga e parece sair com uma lambida, parece fácil, mas é dolorida, dolorida?, esquece meu bem, esse mundo não é pra você. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Compilado de Smiths

Eu fico eternamente insatisfeita com isso aqui. Na radio começa a tocar Smiths e eu voltei com aquela louca vontade de escrever enquanto escuto como se fosse uma tradução do que eu pudesse entender da música. Hoje está aquele vento frio passando pela fresta da minha janela e chega no meu braço com nostalgia. As coincidências voltaram a acontecer, olha que mundo doido. Mas que diferença faz? Então que diferença faz? Me sinto suja, cheirando a alcool e cigarro como antes, andando na rua as cinco, escutando essa musica, indo trocar de roupa para me sujar mais em outro lugar. Mas que diferença faz? Agora estou limpa, mais limpa que tudo acordando as oito. As coincidências voltaram pra me enlouquecer, odeio pensar em coisas que não existem, odeio essa vida moderna. Vejo isso acontecendo enquanto as pessoas vão, o quanto é cedo ainda? Oh boy, eu sou tímida demais então tente nos convencer melhor, use minhas palavras de novo como se fossem suas, coincidências nao existem né?

domingo, 16 de outubro de 2016

A calmaria

Eu não sei o que sonhei de errado. Acabou. Sumiu como se nunca tivesse existido. Esses dias, eu ando fazendo muito isso, tenho pensado nessas frases perfeitas antes de dormir, achando que vou me lembrar no dia seguinte. E já faz uma semana que eu sinto esse cheiro de tinta perto de mim, como se fosse da minha boca, do meu cobertor, do meu sofá. Faz duas semanas que você não diz nada sobre mim, como se eu nunca tivesse existido. Assisti um filme, 500 dias of Summer, porque os títulos nunca são fiéis. Não é bom, mas não é convencional também. E eu gosto de Smiths. Gosto da tristeza e gosto de Hemingway. Eu gosto daquele cara que diz que felicidade tem a ver com a serenidade, não, a felicidade não existe, existe a serenidade, algo sim. E cara, eu experimentei uma dose disso. Desce macio como um bourbon, foi antes de você. Depois eu engasguei, tossi alto e sonhei errado.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Newton

Não era mais questão de ser, era de estar, sabe, tem milhares de coisas que não são de ninguém. Nunca gostei de competições, nunca gostei do conceito de perder e ganhar. Pra se desafiar, tem cronometro, não precisa de outras pessoas. Acho legal quando a bola cai e não é culpa de quem deixou cair e não era mais questão de ser, era de estar, sabe, tem milhares de coisas que não são de ninguém. Nunca gostei de competições, nunca gostei do conceito de perder e ganhar. Pra se desafiar, tem cronometro, não precisa de outras pessoas. Acho legal quando a bola cai e não é culpa de quem deixou cair e nem de quem lançou, é culpa da gravidade, de uma lei física que tem duzentos e cacetadas de muitos anos e não se afeta com a culpa.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A Tempestade

Fiquei por semanas tentando sonhar com isso. Encostei minha cabeça no travesseiro, pensei em você até o sono chegar, mas no dia seguinte nada. Nadinha, nem uma passagem, nem flores, nem um dedo, nada.

Aconteceu inesperadamente, boy. (boy, já estou ficando velha para usar esse tipo de expressão). E foi tudo que eu queria, aquele sonho com tanta nitidez que dava ainda para sentir seu abraço. Sabe que é uma merda esse negócio platônico, a gente fica vivendo em cima de coisa que nem existe, imaginando que se um dia.. mas olha a sacanagem, eu te vejo uma vez por ano, talvez duas, e essas duas vezes já passaram esse ano, talvez e talvez só ano que vem. E olha que eu ainda te vi, sei lá como, uma terceira vez, daquelas coisas surreais que acontecem, eu fui pra sua cidade e cheguei a pensar em avisar que estava indo lá, pra você ver e quem sabe me encontrar, mas não tive coragem e enquanto eu andava pelo shopping ouvi você, achei que estava imaginando coisa mas era você cantando.

No sonho a gente estava no shopping e tinha um conveniente quarto no shopping. E por algum motivo, depois de muita correria e cansaço eu estava dormindo com você. Sem encostar. A sorte é que essa parte passou rápido, engraçado, nunca consigo sonhar com sexo. E você estava de pé em frente ao espelho, se arrumando para um show, e nos abraçamos, daqueles abraços antigos, que demoram a passar. Ok, o sonho foi muito mais longo que isso, minha consciência não deixa eu me divertir muito, até esse abraço foram umas quinhentas oportunidades de te beijar, abraçar e fazer um monte de mais. Mas mas mas.

Ele via minha mão e achava graça, alguém leu um dia que minha vida seria curta e a minha mão era pequena.




terça-feira, 1 de setembro de 2015

Impala (em cima)

Eu tremia. Tremia pra cacete. Fui num lugarzinho qualquer comprar algo para comer e um café, café não, uma água, por favor. Enquanto comia, tremia pra cacete ainda. Cumprimento suave, eu pensei de repente. Às vezes me acho uma merda social, fico meio eufórica quando estou tímida, uso cordialidade, empolgação e umas palavras de periferia na mesma frase. Meus pés doíam de ficar parada, a única coisa que passaria era uma taça de champagne, mas recusei por formalidade. Em um desses corredores, tive um ataque de riso, que foi comprometido pela minha timidez em público, mas não evitou que eu sorrisse enquanto caminhava.

De longe dava para ver apenas o perfil do rosto. Pensei uma coisa estúpida, de uma conversa antiga, fiquei com dúvidas se alguma vez eu tive essa conversa.

Era engraçado eu reparar como um terno sob medida parecia com covinhas de bochecha.

Não sei porque ainda isso acontece com a gente, de se sentir adolescente e rir sozinho, pelo menos não sei até que idade você para de sentir essas cócegas no estômago.

Encostamos nossos braços umas 10 vezes, e cara, como é foda olhar pra você, porque no meu jeito de conversar, olhando pro horizonte, eu me forcei a olhar para você algumas dúzias de vezes, e nessas vezes que eu olhava no seu olho, era tão no seu olho e era você me olhando tão no olho. E me desconcertava tanto que eu virava para olhar o horizonte e esbarrava no seu braço, ou era você que se mexia também, não sei onde é invenção.

E no meio daquelas pessoas você ria e balançava a cabeça para trás e era quando eu te via e cruzava o olhar, eu tinha que sair dali, sabe, tinha que dar uma volta, rindo comigo mesmo, porque só podia estar errada. Estava tudo errado, saca?

Aí que tocava no rádio aquela música they spun a web for me, they spun a web for me

Odeio relato. Odeio fazer igual você, suas crônicas e seu modo de mostrar a realidade de uma observação. Odeio diários, quero dizer tudo nas entrelinhas, quero que você leia uma, cem vezes, até enxergar nossos fatos aqui. Ideia besta de nossos fatos. Quero escrever aqui tudo que aconteceu, sem parecer que aconteceu, porque não aconteceu nada. Quero que só você entenda, mas ao mesmo tempo não entenda, vai que é tudo tão ridículo da minha cabeça e eu me meta numa roubada. Não quero falar com você, não quero te mostrar isso, mentira, eu quero muito, muito, muito, quero que tenha sido real, mas não quero que seja uma crônica. Também não quero que seja real porque vai chegar nos finalmentes e eu odeio finais, são sempre uma bagunça, ninguém consegue guardar segredo nessa merda de mundo.



Não posso dizer que minha memória é suficiente. Mas ela embaralha fazendo a falta se tornar luz, se tornar beleza, falta da falta, saudade com brilho e contraste.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Impala (oxigênio e batatas fritas)

Sabíamos que era impossível voar, mas usávamos nossas mentes pra controlar tudo a nossa volta, e nem nos achávamos, era como se fosse algo comum, falávamos a mesma coisa no mesmo momento, dançávamos no mesmo ritmo e dávamos risada alto. O mundo nem era grande coisa, o universo era só bonito, e nós podíamos tomar conta de tudo, não é.
Aí você diz simplesmente que desiste. Dá aquele arrepio, aquele choro na boca e eu viro as costas. Sabe se lá porque, por desilusão, por orgulho. Eu estive apertando a boca, não sei qual parte do cérebro não cabe nessa cravada, mas deu vontade de gritar e cuspir meia duzia de dentes. E você me disse, afinal, vivemos é de motivo. E eu só pensava porque, afinal, não conseguia pensar e falar ao mesmo tempo. Seria tanto tempo economizado, tantas angustias a menos. Ouvir mais quem sabe, afinal, a gente só pensa quando o outro está falando. Finalmente é isso. Viver sem existir parece pacifico, longe de confusões e expectativas.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Impala (in a sentimental mood)


Não sei se você ainda passa por aqui de vez em quando. Eu sei, não tenho escrito tanto, muita ação, poucos pensamentos bonitos e românticos, a vida mudou, cara. Não sei mais quantos estão na mesma. Não sei mais o que teve parado, porque aqui dentro tudo mudou, mudou demais, não me reconheço mais nas palavras, dá uma nostalgia, saca, talvez eu precise me cuidar mais. Sim, preciso me cuidar mais, mas não sei mais o que me cuida. Tenho uma saudade de você. Tenho saudade desse tempo que as palavras, as escritas valiam mais no nosso coração. Tenho saudade das mensagens de madrugada. Mas a saudade é boa quando se tem uma chance de reviver as coisas. Não há mais chance de reviver. Não há mais chance de eu sair daqui, e mesmo que houvesse, eu não conseguiria voltar para esse tempo. Meu gosto musical mudou. Irrevogavelmente. Nem consigo ouvir mais Bon Jovi e pular com uma garrafa na mão. Passei para momentos de luto ou loucura do jazz. Alguns me dizem que mudei para melhor. E eu poderia dizer que pela quantidade de notas ouvidas, ou por conseguir cantar um pouco melhor, eu deveria concordar. Então sento no meu apartamento vazio e coloco Coltrane ou Shorter, a quantia de cigarros por dia aumenta absurdamente e eu tenho gastado tempo ocupando meu cérebro com seriados juvenis. Nada mais daquilo que me traz dificuldade, que traz incoerência  reflexão, fé ou qualquer tipo de contradição. Engoli as coisas fáceis, elas não trazem dor. Gosto de pensar que tive opção, que escolhi cada momento. Mas não me lembro quando isso aconteceu. Não me lembro dos dias que decidi não sair de casa. Não me lembro quando desprogramei as rádios de rock. Não sei se você ainda passa por aqui de vez em quando. Mas sonho com você não ter mudado. É o único jeito de continuar me vendo melhor como antes.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Impala (62.000)

- "Eu não tenho apego pela felicidade de estar do seu lado. Isso faz com que eu seja livre de você seja livre de mim."
- Hum.. parece que ficou bom mesmo.
- Isso acabei de escrever.
- De qualquer forma, muito bom... Mas discordo.
- Em qual parte?
- Livre sempre somos, independente do apego. O que faz nos procurar não é isso.
- "Você é um espelho que se reflete o meu reflexo do seu avesso". Respeito.
- Você ainda deseja alguma coisa comigo?
- Sabe o que eu acho?
- Não.
- Quer saber?
- Sim
- Que você que quer algo comigo. Mas ontem foi um clichê.
- Não discordo.
- E tenho certeza que você vai negar até a morte. Respeito.
- Não vou negar.
- Pensa: o fato de não ter acontecido Tudo. Foi por que você teve medo de gostar demais e isso te complicar. Isso é uma visão analítica não me entenda como me achando o rei da cocada preta. Não penso isso de mim.
- Acho que todas nossas relações são por interesse, então claro que eu quero algo com você, o que, ainda não defini. Como pessoas acho que nos daríamos muito bem, então não há motivo pra não tentar nem ao menos uma amizade. Sobre o medo já discordo. Primeiro porque não foi medo.
- Espera! Não se justifique. Não precisamos disso. O que você acha de você não vai mudar o que eu acho de você.
- Estamos só tendo uma conversa. Você disse o que pensava e eu estou dizendo o que penso. Só isso.
- Mas isso dito agora soa como justificativa. Me fale depois.
- Ok.
- Olha, tive uma ideia.
- Sim.
- Posso te ligar e ler pra você?
- Pode.
- Antes que a chuva acabe! I'm calling.

- Odeio viva voz. Alguma coisa que você gostou dessas besteiras que sempre escrevo?
- Queria saber se você virou o olhinho quando terminou de ler pra falar que terminou.
- Meus olhos não tinham motivação para o que olhar. E se eles virassem te procurando certamente iriam se revirar e volta para baixo em pranto, pensando: - Ela não esta lá.
- Claro que tudo é muito relativo,  mas HOJE eu gosto de você.
- Mulheres... Sempre com esses bi bi bis de gosto de você, adoro conversar com você... A sensação que tenho é que você gasta muita energia para não escrever nada que deixe a entender coisas a mais.
- Não gasto energia. Gastaria energia querendo que você entendesse algo.
- Você é uma figura! Pena que gostaria muito de fazer sexo com você. PENA!
- Sexo é tao inútil assim. A não ser que você estivesse muito tempo sem. Necessitado ou algo assim.
- Muito pelo contrário. Usei no nosso caso a palavra sexo para retratar a rendição do seu consciente e o êxtase da sua entrega...
- Interessante. Mas ainda não faria isso. Por um simples fato de não querer. Aí não ia ser uma rendição.
- Seria tudo tão mais lindo se você fosse sincera.
- Seria tudo lindo pra você se eu te quisesse fisicamente.
- Está caindo em contradição o tempo todo. É por isso que confio mais no seu olhar de jabuticaba!
- E ele diz alguma coisa?
- Isso não posso te falar. Acontece que acho que você está se sentindo sem armas para duelar.
- Isso é um duelo mental então?
- Não. Isso chama flerte, jogo da sedução...
- E talvez o flerte o jogo de sedução, enfim, você pode estar jogando sozinho.
- Não estou tentando te seduzir em nada. Não faz meu tipo convencer as pessoas de que sou bom pra elas. Ou elas querem estar comigo ou não. E se não, não to nem ai.
- Lindo você assim.
- Assim como?
- Assim "to nem ai". Mas é forçado.
- Você pode estar certa.
- Você vai sumir?
- Você se importa?
- Não
- No fundo eu prefiro te odiar.
- É mais divertido.
- Eu sou insignificante na sua vida. Ódio, amor, tanto faz.
- E deixa adivinhar, você ta nem ai com isso?
- Nada. Você é legal. Foi bom te conhecer.
- Te surpreendi?
- Não. Vai sumir? E sim. Me importo com isso ou pelo menos não quero que isso aconteça.
- Não vejo porque sumir. Podemos ter uma boa amizade.
- E você quer isso?
- Claro, porque não?
- Essa pergunta é pra mim ou pra você?
- Para os dois...
- E qual é sua resposta?
- Que sim, quero isso.
- O que você quer mim?
- O que que quero especificamente não sei, mas por enquanto tá bom o que a gente tem. Talvez quando você me fizer falta eu saiba melhor.
- Ok.
- Tenho uma coisa pra você ler.
- "E era isso, a gente tinha que se acostumar a não ir com muita sede ao pote, embora fosse de natureza escorpiana. Só que era quase engraçado esse nosso instinto, a gente não se permitia ficar parada, era como uma tempestade sempre, saca, e quando abaixava a poeira só se via destruição. É. Quando a gente não tem quem machucar, machucamos nós mesmos, eu sei. Ai tocava November Rain no fundo, a gente dançava lentamente, e tinha toda aquele suspense no ar, éramos fingidos a misteriosos, éramos bastante fingidos num total. Talvez fosse outra raça, ou talvez fossemos tão normais quanto o resto. Não, definitivamente éramos outra raça, pelo menos era mais bonito assim."
- Gostei.
- Não gosto muito desse texto. Gosto só da parte: "éramos fingidos a misteriosos, éramos bastante fingidos num total."
- Eu tenho outro texto: " Dessa vez não vou evitar dizer o que está na minha cabeça só porque eu sei que minha mente geminiana vai negar no dia seguinte, não fugirei de palavras bonitas porque quem diz não é uma pessoa perfeita, não arrumarei mil defeitos pra brigar contra as novecentas e noventa e nove qualidades, não desviarei meus olhos por medo de ter minha mente lida, não sumirei por medo de desaparecer, não vou ferir por medo de machucar, não serei chato por medo de você me achar legal, não vou desistir antes de começar, não vou evitar minha excentricidade, não vou me anular por sentir demais e logo depois não sentir nada, não vou me esconder em personagens, não vou contar minha vida inteira em busca de ter realmente uma vida."
- "Dessa vez não vou querer tudo de uma vez, porque sempre acabo ficando sem nada no final. Estou apostando minhas fichas em você e saiba que eu não sou de fazer isso. Mas estou neste momento frágil que não quer acabar. Fiquei menos cafajeste, menos racional, menos eu. E estou aproveitando pra tentar levar algo adiante. Relacionamentos que não saem da primeira página já me esgotaram, decorei o prólogo e estou pronta pro primeiro capítulo."
- Acho que resume muita coisa, embora seja um resumo cheio de detalhes.
- É, eu acho que o tempo e a melhor solução pra tudo
- Acho que a nossa vontade e ação é a solução. Não pra tudo, mas nesse caso.
- Você é linda.
- Não sou. Nem por dentro nem por fora.
- Por dentro você não é MESMO.
- Eu sei.
- Gostou de ter me beijado?
- Pra ser sincera, não. Mas é porque não queria.
- Então porque fez ?
- Porque foi o envolvimento. Fui levemente seduzida.
- Posso te fazer uma proposta?
- Faz.
- Temos uma ótima afinidade. A única coisa que atrapalha é essa merda de relacionamento H e M. Esquecemos ontem (essa parte) e seguimos adiante. Amigos, bons amigos, sem mais, "se" ou talvez.
- Ok.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Impala (nós e mãos)


Não precisava te mandar mensagem, porque talvez fosse mais egoísta ainda, só queria falar mais um pouco de você sobre mim, então era só uma questão de escrever e te entregar depois. Andei pensando bastante em você, coração, não porque já gosto de você ou quero você, isso você mesmo já sabe, andei pensando nas causas, embora ontem me forcei a abdicar disso, andei pensando nos porquês, no que você me fala, na vida de um modo geral, na sua vida na minha, acho que me dispersei procurando entender sentimentos e vontades e decisões, não precisava de nada disso.

Agora talvez entenda melhor essa sua crença no desapego. Acho que cada um carrega isso e transforma de um jeito diferente. Por incrível que pareça, eu tenho essa mesma crença, mas acho ela tão sofrida de se conseguir de fato, que acabo fazendo tudo ao contrario. Dou importância demais a tudo, criando um próprio desapego de tudo, nunca fui de sofrer tempo necessário pra carregar as coisas. Mentira. É bem provável que me apegue a tudo e a todos. Não tenho vocação pra ser um mestre zen, pra ir pro céu ou pra enxergar a luz no fim do túnel.



Mudando de assunto, estava pensando na questão do tempo. Você disse que a maioria das pessoas correm com a vida. Eu na minha condição de ansiedade fatal, capaz de coisas incríveis, não posso dizer que sou diferente. Mas acredito no tempo de uma outra forma. Só existem duas maneiras de lidar com o tempo. Ou você é escravizado por ele, ou você o escraviza. Mas achei engraçado quando disse que vai com a vida devagar. Na sua qualidade de músico, acredito que tenha a mesma inquietação que a maioria dos outros músicos. Não que isso tenha a ver com o seu tempo cronológico ou mental, mas se você escolheu um tipo de vida, bem...

Queria te escrever mais um tanto de coisas. De como eu fiquei puta quando você duvidou que eu não te mandaria mensagem. E pra mim, o único motivo dessa dúvida era porque você não queria que eu mandasse. E mais puta ainda, quando eu soube que meu premio de recompensa seria um “bom dia” no dia seguinte. Como se isso fosse uau. Acabo de receber “é o fim de nós?”. Isso não é bom.  Me recordei rapidamente de todas as pessoas e coisas que perdi por ainda não estar preparada para elas, ou por ainda ter muita curiosidade de mundo e dificuldade em ser permanente. O que teríamos afinal, nós? Uma espécie de fingimento e verdade, acho que eu acredito nisso. Fingimento porque dizemos e agimos um ao outro como se nada estivesse acontecendo, como se não quiséssemos nada pra amanhã, ou mesmo que não quiséssemos mudar nossas situações. A verdade é porque é verdade sim isso tudo também. Ou não. Mas não acredito que você tenha uma ideia mais definida do que eu.

Eu nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta loucura, tanta emoção. E por enquanto, nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo. E estou adorando isso.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Impala (por toda minha vida)

Stage. O sol brilhava lá fora e o céu continuava bonito, de um cinza azulado, certeza que estava lá. No radio, Neil Young, ele com aquela cor vermelha me testando. Os casais se beijavam ao redor, provocando a aparente dança do acasalamento e me provocando uma nova nostalgia, tinha certeza de algo que não sabia o que era, mas o céu estava lá, certeza que estava lá. Eu tomava um grande gole de café, com toda falta de humildade que me restava, deitava no chão, ele pegava sua guitarra preta, arranhava uma nova calçada, its time to go home now, e eu levava ele pra casa, colocava a mão na testa fria e fechava a boca, o sol brilhava lá fora, as luzes piscavam, eu colocaria ele novamente na cama, stage two, e ele estava tão bonito nessa noite.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Impala (cinco doses e uma golada e meia)

Seria pedir demais, eu entendo, a ausência de pensamento é utópica. Hoje eu te peço que fique, mais, ficar um dia atras do outro, a sorte não tem vindo me acompanhar, quero uma outra garrafa de whisky, quero voltar naquele momento platônico onde não existia chance de chegar. Queria  poder existir nesse outro caminho sem comprometer o seu, mas você me beija e me abraça e eu já quero comprometer tudo de novo, que sossego porra nenhuma, eu te mostro uma vida de paixão que nunca acaba, possível, possível comigo, olha que mundo pequeno, nem cabe o nosso sorriso, me abraça de novo, não me deixa ir mesmo que eu tente mais umas milhões de vezes, quero viver intensamente esse pensamento, vamos comprar essa garrafa logo assim nunca me enjoo desse seu beijo doce, forte, calado. 

Impala (bordo)


Será que dava pra viver um amor com um possível prazo de validade? Não sei, tudo que poderia se realizar ia se perder depois, apartamento alugado, memorias esquecidas pela quantidade de álcool ou fumo, nem um filho para pensar que aquilo tinha sido consumado. Não sei viver menos, e muito menos em contagem regressiva. Se eu penso em desistir? Pra mim isso nunca foi uma opção real mesmo, boy, mas tem horas que eu penso, mais devagar coração, cuidado pra não bombear tanto sentimento assim. Mas a gente não ia devagar, e nessas horas em que se lembrava da perda, doía, doía por esquecer de não ser rápido demais, senão esses 3 anos iam passar em 1 mês, meu relógio natural invertia com você, parecíamos estar nos encontrando agora, mas a verdade é que o tic tac andava e ai doía. 

Não pensava em desistir, não pensava em quase nada porque amanha não ia fazer diferença. Se amariam até o ultimo dia.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Impala (luv)

Ela andava do meu lado. 
Eu tentava olhar pra frente, ela olhava pra frente, mas eu queria ver mais, o café estava gelado, podia estar frio pra ela soltar aqueles gemidos e eu abraçar ela, mesmo que fosse de brincadeira, por dois segundos, por dois segundos encostar nela e apertar só um pouquinho pra que naqueles dois segundos ela fosse minha, eu sentisse ela minha, achei que poderia cair, e ela caísse junto comigo, caísse em cima de mim e a gente se olhasse por dois segundos, e nesses dois segundos eu sentisse ela se aproximar da minha boca. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Impala (cor de agua)


Ele disse então:
- Não sinto mais o perfume dela. Acho que deixei de amar.

Achava que nem podia mais sair naquelas noites geladas de Barcelona. Seu pescoço reluzia a quase 3 metros de onde eu estava, mas não sentia mais o mesmo cheiro. Talvez só tivesse trocado de perfume ou colocado outro lençol na cama. O vento batia e não trazia mais aquele tempo amadeirado que um dia já fora meu. Sabia de cor e salteado aquela velha história. Tinha 6 dinheiros na mão e mais algumas moedas e mal tinha o dom de multiplicar, nunca apostara em algo e vencera. Então era melhor gastar de uma vez antes que as traças comessem ou trocasse novamente a moeda no país. O Café Schilling estava aberto. Para ser um bom escritor só precisava de duas coisas. Solidão e cerveja. Nesses ultimos dias a cerveja não tinha feito muita companhia, por isso a solidão. Só os homens sabiam amar, essa era a verdade. Porque só os homens sabiam focar em uma unica coisa, e quando se ama, ama e só. O mar se dissipava com o vento noroeste. As letras estavam tortas com o balançar. Estava sozinho, tomando um scotch mais quente que minhas mãos. O pescoço dela ainda reluzia a 20 metros de distancia. O cabelo não encobria com aquele vento noroeste. Sentado, batendo com o pé no chão, impaciente, novas marcas de batom e já fechavam o café e eu não conseguia nem ter raiva. Não dava pra pensar na morte com paixão e aos 60 anos de idade não dava pra viver com mais tanta, com ela. Só estava esperando o momento de dizer que não a amava mais. Mas o pescoço dela reluzia a 50 metros de distancia e eu só podia correr pro mar.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Impala (tapa)

Pedir não é bom, mas as vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal. Porque o amor, como a morte, também existe - e da mesma forma, dissimulado. E, de qualquer forma, as cegas, as tontas, tenho feito o que acredito, do jeito torto que sei fazer.


Datas não são legais, mas as vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal. Porque o amor, como um regime, precisa começar de algum ponto. E quando esse ponto é a separação, o amor, como a morte, também existe - e da mesma forma, dissimulado. E, de qualquer forma, as cegas, as tontas, tenho feito o que acredito, do jeito torto que sei fazer.


A vida virava do avesso de novo, e tudo que a gente acreditava parecia mentira, os termos eram outros, queríamos fazer o certo e acreditar de novo. E como a gente acreditava e amava. Era desajeitado, parecido com aquelas mesas tortas que balançavam mas não incomodavam não, era uma linda noite de primavera, eu enjoava nesse balanço do mar, um-dois, passava pro cara do lado, eu descia as escadas e procurava ele, um-dois-tres, se eu permanecesse sentada parecia que ia flutuar, se eu levantasse depressa, um, pulava o cara do lado, de onde minha cabeça estava apoiada não conseguia ve-lo, queria urgentemente me distrair pra fixar meus pés no chão, ele vai ficar com raiva mas agora não consigo parar, estou no meio da leitura, um-dois-tres-quatro, agora acertei a roda, minhas pernas estão formigando enquanto eu leio, consigo quase ouvir ele me xingando, falando pra eu parar, mas não posso parar, preciso falar pra todos que aquilo era pra voce, um, agora tinha dois, conseguia ouvir o ruido da tv, agora não tinha mais pressa de nada. Nem de ler. Nem de levantar.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Impala (do lado)

"E se sentia a quilômetros, ela tinha um perfume único, uma mistura de colônia, cigarro e tristeza..."


Sentia saudades daquela época.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Impala (bula)

Mas eu fumei um milhão de cigarros até desaparecer toda essa massa cinzenta da minha cabeça.

Impala (vide)


Mas será que era exatamente aquilo? Os milhares de links no computador, a briga ou uma conversa inutil? Bom, nem sei se a palavra correta é essa, inutil. Mas estava ali, saca? Estava na minha frente e no dia seguinte também, eu iria tocá-lo, eu ia ve-lo. E parecia tão agora. Caralho, não era só agora. Foi voce que ficou em duvida, se perdeu no tempo, foi voce que errou? Foi voce que não soube lidar, porque quando a gente lida com essas coisas, tem que saber lidar. Duvida, eu dizia. Pois é. Eu penso que se não fosse duvida, porque eu só agiria assim por duvida, seria apenas a coisa simples, a verdade. Porque assim como tem que saber lidar, tem que saber captar a hora exata em que isso tudo foi acontecer, nada se supera, as coisas tem que estar resolvidas dentro da gente, saca? 


Eu não queria ficar mais um minuto com voce, eu queria ir embora, eu queria ir pra bem bem longe.