Cá entre nós


Eu estava aqui pensando naquele emails gigantes que a gente diz tudo, tudinho mesmo. No carro, aumentou o volume para não pensar no que estava fazendo. Prestava atenção no gps e nos caminhões que passavam lentamente ao lado. Uma hora e quarenta e oito minutos. Estacionou em frente a casa. Não sabia o que fazer. Se tocava a campainha, ligava, não, não ligava, não tinha o número. Resolveu esperar o destino. Se a porta não abrisse era hora de ir embora. Olhou fixamente para a casa. Nada, nem vento na rua. Ligou o carro. Deu mais uma encarada na porta. No rádio, um jazz melancólico. Era hora de ir. Olhou para o retrovisor para dar entrada quando avistou alguém de camisa xadrez e rosto para baixo no fim da rua. O coração parou. O cabelo escondia os traços, mas o corpo e a camisa tinham que ser dele. Mesmo que visse tudo não teria certeza se reconheceria, mas congelou com a seta ligada e as mãos no volante. Tic-tic. 

A tela do computador se mexia como uma miragem. Meus olhos estavam fixos, tentavam se lembrar quais eram as palavras do sonho. Ela desligou o carro. O calor invadiu pela janela aberta. Só podia ser ele. Pegou a chave do bolso, abriu o portão e mais uma vez olhou para ela. Agora parecia que se reconheceram. Ele deixou o portão aberto, deu a volta no carro e debruçou-se na janela. - É você mesmo? - Ela afirmou com a cabeça.

- Quer entrar? - ele disse antes mesmo de um “o que você está fazendo aqui?”. Ela afirmou novamente com a cabeça. Ao abrir a porta dois cachorros saudaram, uma tartaruga andava pelo corredor na direção oposta. Os cachorros cheiraram o pé dela e saíram pela porta do outro cômodo. Ele convida ela pra sentar, pergunta se quer água ou alguma coisa. - Não, obrigada. - ela senta no sofá incomodada. O que fez? Agora já estava lá, bem no meio. Olhou pra ele. As fotos pouco condiziam com a realidade. É a falta de perspectiva, você mal sabe a largura da cabeça, a quantidade de cabelo, o tamanho da mão, do braço. No que se levantou repentinamente, ele se pôs em pé também. Se olharam mais uma vez. Ela estava decidida a ir embora. Tinha uma impressão, uma certa impressão e muitos segredos. Se acontecesse, sua culpa seria permanente. Se não, seu própria ego ficaria machucado. - Preciso ir embora. - Por quê? - ela preferiu não responder e foi em direção a saída. Quando colocou a mão na maçaneta ele por trás impediu a abertura da porta. Seu corpo chegou o mais perto possível do dela. Sentiu uma respirada vinda do alto diretamente no seu pescoço descoberto. Um arrepio subiu pelo torso. Não ousou virar na direção dele. Ficaram alguns segundos ali, imóveis. Quando ela finalmente resolveu encarar, os rostos já estavam juntos demais. 

Tenho um alto problema em descrever sexo. O que fazer para não ficar parecendo um conto erótico ou novela de banca de jornal? A expectativa que tudo se encaixe perfeitamente na imaginação me contraria. Como eu faço dar certo minhas preferências sem perder um pouco da realidade? Eu já sei tudo de cor. Já sei de todas as possíveis consequências daqui para frente, já vi e revi. Eu vou embora mesmo assim ou fico e nunca mais haverá confiança. Já passei por isso. Desconfio tanto dos outros que só posso fazer minhas pernas. Eu tento botar defeitos em você, porque a gente se apaixona pelo desconhecido. A imaginação já foi, numa realidade paralela quem sabe, melhor contar de outro jeito. 

Eu estava aqui pensando naquele emails gigantes que a gente diz tudo, um banho de água fria. No carro, aumentou o volume para não ficar pensando no que ia dar. Prestava atenção no gps, na música e nos caminhões ao lado. Estacionou o carro em frente a casa. Resolveu esperar o destino. Nada, nem vento na rua. Ligou o carro. No rádio um jazz melancólico. Era hora de ir. Olhou para o retrovisor para dar entrada, quando avistou alguém de camisa xadrez e rosto para baixo no fim da rua. O cabelo escondia os traços, mas o corpo e a camisa tinham que ser dele. Tic-tic, ele se aproximava mais, foi quando olhou para ela. - O que você está fazendo aqui? - ele disse. - Vim para te conhecer, finalmente. - um pouco mais tranquila por ele a ter reconhecido. - Quer entrar? - ele perguntou olhando para a casa. - Que tal a gente sentar ali? - caminharam até a praça, sentaram no banco e ficaram conversando sobre o universo e buracos negros até à noite chegar. 

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