Narciso (cronica)


Fomos ao mercado, compramos algumas latas de sardinha, bebida e cigarro. Nunca andávamos de mãos dadas, sem motivo aparente, ele me disse uma vez que isso não demonstrava nada. Eu não concordava, pra mim era só alguma ligação, mas que demonstrava algo. Nunca discuti. Não éramos muito de discutir, acho que eu sempre falava mais, mas nunca assuntos polêmicos, era tarde pra isso, estávamos sempre cansados, sempre com nossas contas atrasadas, sempre com alguma coisa incomodando. Nos finais de semana, juntávamos com os amigos, bebíamos em algum bar da cidade, geralmente o mais barato, eu não questionava, não tenho um gosto necessariamente refinado. Mas ele sempre se lambuzava com aquelas drogas acidas, ele sempre fazia aquilo, não pra me irritar, acho que é dele mesmo, e eu sempre o aceitei assim. Quando passamos anos com uma pessoa, quase nunca aparece nada novo, a gente se habitua até aos pequenos detalhes, nem pensamos mais nisso. Era domingo, trabalharíamos amanha, e toda aquela rotina de sempre, estávamos no sofá, na TV algum canal qualquer, eu com a cabeça encostada em suas pernas, ele com uma careta aparente de duvida, testa franzida, eu olhando para seu rosto, de baixo para cima, acho que nenhuma pessoa fica bonita naquele ângulo. Vamos viajar para algum lugar? eu perguntei até que espontaneamente, mas esperando alguma critica de insensatez ou em seqüência todas as nossa responsabilidades jogadas em cima da mesa. Ele ficou em silencio e me puxou. Fomos ao mercado, compramos algumas latas de sardinha, bebida e cigarro. Pegamos o primeiro ônibus que ia pra uma cidadezinha chamada Arroio d'Água do Alecrim Mimoso, escolhemos essa porque o nome era esquisito mesmo. Ao embarcar, subi os degraus, fui procurando nossos lugares, eram os últimos, ao me sentar olhei para frente e ele não estava ali. Fiquei procurando pela fila que se adentrava, nada, quando olhei pela janela, estava ele parado do lado de fora, estarei te esperando quando voltar, dizia o papel amassado em suas mãos. O ônibus seguiu para aquela cidadezinha, eu ali, olhando ele ficar longe. Nós nunca andávamos de mãos dadas.

Comentários

Praguejento disse…
Nossa, adorei esse continho.
Achei-o bem sensível.
Bok disse…
Dos que eu li este é o seu melhor.
ludo disse…
achei muito foda

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