quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Impala (cor de agua)


Ele disse então:
- Não sinto mais o perfume dela. Acho que deixei de amar.

Achava que nem podia mais sair naquelas noites geladas de Barcelona. Seu pescoço reluzia a quase 3 metros de onde eu estava, mas não sentia mais o mesmo cheiro. Talvez só tivesse trocado de perfume ou colocado outro lençol na cama. O vento batia e não trazia mais aquele tempo amadeirado que um dia já fora meu. Sabia de cor e salteado aquela velha história. Tinha 6 dinheiros na mão e mais algumas moedas e mal tinha o dom de multiplicar, nunca apostara em algo e vencera. Então era melhor gastar de uma vez antes que as traças comessem ou trocasse novamente a moeda no país. O Café Schilling estava aberto. Para ser um bom escritor só precisava de duas coisas. Solidão e cerveja. Nesses ultimos dias a cerveja não tinha feito muita companhia, por isso a solidão. Só os homens sabiam amar, essa era a verdade. Porque só os homens sabiam focar em uma unica coisa, e quando se ama, ama e só. O mar se dissipava com o vento noroeste. As letras estavam tortas com o balançar. Estava sozinho, tomando um scotch mais quente que minhas mãos. O pescoço dela ainda reluzia a 20 metros de distancia. O cabelo não encobria com aquele vento noroeste. Sentado, batendo com o pé no chão, impaciente, novas marcas de batom e já fechavam o café e eu não conseguia nem ter raiva. Não dava pra pensar na morte com paixão e aos 60 anos de idade não dava pra viver com mais tanta, com ela. Só estava esperando o momento de dizer que não a amava mais. Mas o pescoço dela reluzia a 50 metros de distancia e eu só podia correr pro mar.

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